Macarrão Raw com Caju Gourmet e refogado de PANCs

    Por Malu Maes Leme

    Este macarrão é tudo de bom! É delicioso, crocante e raw (crudívoro – livre de cozimento) – então mantém suas enzimas e nutrientes biodisponíveis. A cremosidade do Caju Gourmet Bioporã deixa o molho com uma cremosidade especial.

    Um segredinho é deixar o macarrão “marinando” com os temperos por alguns minutos. Além de mais sabor, o resultado é uma textura incrível!

    O uso de PANC (plantas alimentícias não convencionais) no nosso dia-a-dia traz diversos benefícios! Estas plantas são consideradas “matos” e por isso são muito mais fortes e, até mesmo, mais nutritivas do que as hortaliças convencionais. Saiba mais sobre as PANCS aqui.

    Busque saber mais sobre as PANCs! Conheça e experimente: ora pro nobis, bertalha, caruru, beldroega, trapoeraba, João Gomes, e também o almeirão e serralha que utilizei nesta receita. Visite as feiras de agricultura orgânica e também conheça os “matos” do seu jardim!

    Ingredientes:

    • 1 cenoura
    • 1 abobrinha
    • 1 beterraba pequena
    • 1/4 de cebola roxa fatiada
    • cebolinha verde picada
    • 2 colheres de sopa cheias de Caju Gourmet
    • Gotas de limão
    • Pitada de sal rosa
    • 1 molho de almeirão roxo picado
    • 1 molho de serralha picada
    • 2 dentes de alho amassados
    • 1 colher de chá de açafrão em pó
    • Óleo de coco
    • Shoyu (sem glutamato, corantes e açúcar) ou pitada de sal rosa

    Modo de Preparo 

    Passar no spirilizador (ralador de legumes específico para macarrão) a cenoura, abobrinha e beterraba. Você também pode utilizar um “mandolim” ou ralador convencional. Depois misturar a cebola, o Caju Gourmet (diluído em um pouco de água filtrada até adquirir consistência mais cremosa), as gotas de limão e a pitada de sal rosa. Misturar bem com as mãos massageando. Depois deixar marinar na geladeira por 30min a 1 hora.

    Enquanto isso, prepare o refogado das PANCs. Em um frigideira refogue o alho com óleo de coco e açafrão em pó. Depois acrescente a serralha e o almeirão picados e deixe cozinhar até ficarem macios, porém com sua cor verde vibrante. Acrescente shoyu no final. Misture e sirva por cima do macarrão colorido!

    Rendimento: 2 porções

    Conheça as PANCS: Plantas Alimentícias Não Convencionais*

    Trapoeraba, um "mato" que pode ser utilizado no Suco Verde!

    Trapoeraba, um “mato” que pode ser utilizado no Suco Verde!

    As plantas alimentícias não convencionais ou “PANCs”, são importantes fontes de alimento para a humanidade há séculos. O botânico Valdely Kinupp, em sua tese de doutorado, estudou 1.500 espécies dessas plantas na Região Metropolitana de Porto Alegre. Este estudo apontou cerca de 311 plantas com potencial alimentício, descobrindo que pelo menos 100 delas têm grande potencial para enriquecer nossa alimentação, gerar renda e ainda conservar a natureza.

    As PANCs são plantas quPANCSe nascem de forma espontânea e podem ser encontradas, com facilidade, em qualquer beira de estrada, terrenos baldios, hortas e áreas cultivadas, bem como nas florestas nativas. O resultado de 10 anos de trabalho dos autores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi – dois dos maiores estudiosos de plantas no Brasil foi publicado ano passado. A obra, com mais de 700 páginas e 351 espécies catalogadas, nos mostra todo o potencial não utilizado destas plantas, que foram gradualmente preteridas em favor de espécies exóticas.

     

    A seguir, publicamos um trecho da entrevista cedida por Valdely Kinupp ao Coletivo Catarse.

     

    O que de especial te motivou a trabalhar com as Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANC)?

    Foi a questão econômica e de sustentabilidade, mas também o prazer de fazer um trabalho novo, praticamente inédito, da forma como foi feito.

    Pensando numa alternativa, desde a sobrevivência na selva, na lida no campo, mas também numa perspectiva de geração de renda, empregos, conservação da natureza, porque hoje vivemos uma monotonia alimentar.

    As PANCs, e nossa biodiversidade como um todo, seja ornamental, medicinal, madeireira são, muitas vezes, negligenciadas. Especialmente as alimentícias aqui no Brasil.

    Se olharmos nossas refeições caseiras, o cardápio nos restaurantes, as ofertas dos self-services, nas gôndolas dos supermercados e nas feiras, praticamente tudo é exótico, pouco é local, com baixa importância regional, estadual e nacional.

    O Rio Grande do Sul, mesmo sendo considerado um estado celeiro do Brasil, não está adaptado às futuras mudanças climáticas. Contudo, vários estudos internacionais vêm mostrando que as plantas regionais, as ditas plantas “daninhas”, as plantas espontâneas, são muito mais adaptadas [até por rotas metabólicas e fisiológicas diferentes] ao aumento do gás carbônico e da temperatura no ar, em comparação com as commodities agrícolas.

    Não estamos preparados para catástrofes e desastres ambientais,
    porque as pessoas não sabem mais o que comer do seu quintal.

    E isso é um ciclo vicioso. As crianças deveriam aprender desde cedo nas escolas e com os pais que existem milhares de plantas que podemos comer.

    Muitas vezes, nas saídas de coletas que realizamos periodicamente, sempre aparecem curiosos. Já aproveito para fazer uma educação informal, mostrando o que é comestível, e mesmo assim, alguns ainda pensam que sou uma pessoa que está passando necessidade, porque estou catando um frutinho qualquer ali no mato.

    Precisamos quebrar essa tabu.
    Sabendo que determinada planta é comestível, você não mais a verá como mato.

    É preciso aprender isso: tudo foi mato um dia, até nossos ancestrais descobrirem que certas plantas eram comestíveis, inaugurando um novo paradigma alimentar para o reino vegetal.

    A preocupação da sociedade só ocorre quando secas drásticas (ou excesso de chuvas) reduz a oferta de uma planta folhosa local: precisamos trazer de outras regiões…

    Se, por exemplo, estivéssemos plantando bertalha (e.g., Anredera cordifolia, A. krapovickasii – Basellaceae), como hortaliça aqui no RS e não o alface, os agricultores não estariam passando tantos problemas, porque são plantas que toleram o período de estiagem e co-evoluíram neste ambiente.
    A bertalha foi um dos carros-chefe na minha pesquisa, ou espinafre-gaúcho, como preferi registrar popularmente, que você pode comer as folhas, muito rica em zinco, ótimo para memória, uma planta perene, mas que possui outra boa vantagem: além das folhas como verdura, tem as batatinhas áreas e também os tubérculos subterrâneos na pequena batata que ela produz que são legumes, com usos similares ao da batata-inglesa.

    Destes órgãos amiláceos foi descoberta uma substância nova, em 2007, de proteção para cavidade gástrica, que inibe a ação de tripisina [“Ancordin”].

    Alguns estrangeiros queriam comprar cerca de duas toneladas desta ‘batata’ da bertalha. Cadê o produtor? Não há cultivos racionais desta espécie no Brasil…

    E continuamos falando da nossa biodiversidade, mas comendo a biodiversidade dos outros continentes/países. Plantamos trigo, arroz, café, laranja, eucalipto e soja, e nada disso é nativo do Brasil. Cadê o plantio de bertalha, ália, crem, jacaratiá…

    A domesticação do pêssego-do-mato? E tantas outras hortaliças e frutíferas silvestres com grande potencial agrícola e nutricional?

    Não existe. As pessoas valorizam tanto suas tradições em cada um dos nossos estados, falam bastante da biodiversidade, mas não a conhecem, e isso é riqueza abstrata.

    Se fala que a Amazônia vale trilhões. Vale nada. As pessoas estão passando fome lá. Muita gente vivendo precariamente, como aqui, na famosa Porto Alegre, com sua periferia cheia de pessoas comendo mal, sentindo frio ao dormir.

    Não adianta termos uma biodiversidade imensa na Região Metropolitana se não a comemos ou a utilizamos de forma sustentável para outros fins. Muito menos geramos divisas e empregos, porque ninguém planta.

    Nós somos xenófilos, gostamos do que é de fora, quando aceitamos de pronto e não conhecemos o nosso, não mantemos as nossas tradições.

    Meu intuito é fazer a extensão, a popularização, dessas plantas nativas e subsidiar outras áreas do conhecimento, não ficar uma ação isolada.

    Que a Agronomia possa estudar isso no aspecto fitotécnico e horticultural;

    Que a Nutrição pesquise a parte bromatológica;

    Que a Química, a Bioquímica, a Farmácia pesquise a parte toxicológica e fitoquímica.

    Trazer à tona, RESGATAR e propor novas plantas para serem incorporadas na dieta humana, o que conduz aos estudos transversais. E aí a importância, num trabalho básico desse como o nosso, de detalhar as plantas nativas.

    Mas friso que não se pode entender isso como uma verdade absoluta. Trata-se de uma proposta em construção, que começa desde as experiências individuais dos pesquisadores envolvidos, dos relatos de pessoas que fazem uso tradicional, por dados de etnobotânica antigos.

    E será apenas um segmento da pesquisa, que servirá como subsídio para outras áreas de conhecimento. E, o mais importante disso é ponderar o uso e ter diversificação. Por isso a ciência é dinâmica.

    Todas as plantas têm seus prós e contras, seus modos de preparo adequados, períodos de consumo, com maior ou menor sensibilidade das pessoas. Mas nós não podemos blindar as plantas não-convencionais por acharem que são mais tóxicas que as comuns que você tem no dia-a-dia.

    Há carência de pesquisa, pois o comum é pesquisar só aquilo que está badalado: o morango ou tomate. E não se pesquisa nosso juá nativo, que tem tanto ou mais licopeno que o tomate, porque nem se conhece.

    Por isso a necessidade da transdisciplinaridade e de fazer essa passagem para o uso real e efetivo da nossa flora diversa. Nós não sabemos nem quantas espécies temos no Brasil: 50 mil?Pior ainda: restrito à Botânica?

    Não há consenso, nem uma listagem garantida. Há hipóteses, mas nem isso sabemos.

    Não só a biodiversidade vegetal, mas animal também, que é mais paradigmática e cheia de tabus, com legislação cada vez mais engessada, necessitando ser revista com urgência, para que a nossa fauna alimentícia possa e deva ser criada de forma ecologicamente correta.

    Estamos em uma área muito boa de se trabalhar. Eu pude fazer uma pesquisa aplicada e transferir isso para as pessoas.

    Esse é um tipo de trabalho que desperta bastante interesse, de compartilhar aquilo que você pode fazer no ponto de ônibus e dentro dele, na divulgação corpo-a-corpo, porque as pessoas entendem, sendo gratificante para o pesquisador poder conseguir explicar o que faz.

    Falo que trabalho com as plantas que existem por aqui no chão, em todo o lugar, que não são aproveitadas, mas que dá para comer, seja verdura ou frutíferas, condimentos e por aí vai.

    No entanto, uma área, infelizmente, carente de pesquisa e de editais de financiamento no Brasil.